Pov de Felix
Os dias pareciam se arrastar dentro daquele quarto sombrio, onde a pouca iluminação e o ambiente opressivo reforçavam a sensação de prisão para mim. Eu estava sentado no pequeno colchão, as mãos entrelaçadas sobre o ventre, enquanto meu olhar vagava sem foco pelas paredes escuras. A angústia e a preocupação com meu filhote aumentavam a cada momento que passava ali, sem notícias do mundo exterior.
A porta rangeu ao se abrir, e a jovem ômega entrou novamente com uma bandeja. Seus movimentos eram lentos, como se cada passo exigisse mais força do que ela tinha. Não conseguia ignorar os machucados em seu rosto e braços, e o modo como ela evitava contato visual.
– Trouxe sua refeição. – Ela disse em um tom quase inaudível, colocando a bandeja sobre a pequena mesa do lado do quarto.
– Obrigado. – Murmurei, tentando parecer amigável. Eu sabia que a bondade dela era a única fonte de conforto naquele lugar, e eu não queria assustá-la.
Enquanto ela arrumava as coisas, finalmente quebrei o silêncio que vinha pairando entre nós nas últimas visitas.
– Posso te fazer uma pergunta? – Perguntei hesitante.
Ela parou, olhando para mim rapidamente, antes de voltar sua atenção para a bandeja.
– Depende da pergunta. – Respondeu ela, sem compromisso.
– Woojin... – Comecei, a palavra saindo como um sussurro. – Quem é ele... de verdade? Por que todos parecem temê-lo tanto?
A ômega hesitou, seus ombros tensos enquanto pensava se devia responder. Finalmente, ela suspirou e se virou para me encarar, os olhos cheios de cansaço e algo que parecia ser uma dor profunda.
– Woojin é um alfa tirano. – Começou ela. – Ele governa essa matilha com punho de ferro. Para ele, ômegas não passam de ferramentas... objetos descartáveis. Ele faz o que quer, quando quer, e ninguém o questiona. Sua guarda é composta por alfas e betas leais, todos cegamente devotos a ele.
Engoli em seco, meu coração disparando ao ouvir isso.
– E os ômegas? Como ele os trata? – Perguntei, embora temesse a resposta.
A ômega desviou o olhar, os dedos apertando o tecido do vestido com força.
– Pior do que lixo. – Respondeu ela, com a voz embargada. – Somos propriedades dele, sem direito a voz ou escolha. Se cometemos qualquer erro... ou simplesmente se ele está de mau humor, somos punidos.
Não consegui esconder a expressão de horror em meu rosto. Me inclinei levemente para frente, a preocupação transparecendo em minha voz.
– O que aconteceu com você? – Perguntei, gesticulando na direção dos hematomas no rosto dela.
Ela recuou ligeiramente, os olhos arregalados, como se esperasse ser repreendida por ter permitido que eu visse seus ferimentos. Após um longo momento, ela suspirou e se sentou na beirada da cama, o olhar fixo no chão.
– Entrei no cio enquanto limpava o quarto dele. – Confessou, sua voz um fio de som. – Não foi minha culpa, mas ele me considerou... inconveniente. Meu castigo foi passar o cio inteiro amarrada no porão.
Senti um nó na garganta, e lágrimas encheram meus olhos enquanto imaginava o sofrimento que ela havia passado.
– Isso é monstruoso... – Sussurrei, apertando as mãos contra o peito.
A ômega ergueu os olhos, suas feições endurecendo.
– Monstruoso é o que ele fez com uma de nós há alguns anos. – Ela disse, sua voz cheia de amargura. – Ele escolheu uma ômega para ser a mãe de seu herdeiro. Forçou o cio dela e... fez o que tinha que fazer. Assim que o cio terminou, ela enlouqueceu e tentou fugir. Alguns dizem que conseguiu escapar; outros acreditam que ele a matou pessoalmente. Ninguém sabe a verdade, mas a história dela é contada como um aviso para que nenhuma de nós tente resistir.
Eu estava em choque. A ideia de que alguém pudesse ser tratado de forma tão cruel era insuportável, e a preocupação com meu próprio futuro ali crescia como uma tempestade.
– Eu preciso sair daqui – Eu disse com a voz carregada de determinação. – Não posso ficar preso nesse lugar.
A ômega se levantou, olhando para mim com olhos cansados e cheios de tristeza.
– Eu espero que consiga. – Disse ela, antes de pegar a bandeja vazia e se dirigir à porta. – Mas tome cuidado. Aqui, as paredes têm ouvidos, e a floresta ao redor é tão cruel quanto Woojin.
Fiquei durante a tarde toda apenas escutando sons diversos, eu precisava saber o que se passava fora desse quarto. Olhei pela janela e percebi que a floresta não ficava muito longe de onde eu estava. Ao fim do dia consegui gravar cada passo dado no corredor, cada conversa e notei que no andar onde eu estava haviam 7 pessoas e no andar de baixo eu ouvia Woojin falar sobre a alcateia do Leste.
Eu precisava criar uma distração para poder sair do quarto. Na hora do banho, o mesmo beta veio para me levar ao banheiro. Tomei um banho relaxante e logo o mesmo beta me levou pra jantar junto a Woojin. Enquanto estávamos descendo as escadas notei uma sala cheia de armas ao lado direito, não havia ninguém, o lugar parecia tranquilo.
Assim que eu chego na sala de jantar, Woojin me esperava com um sorriso que eu realmente odiei.
– Espero que esteja gostando da estadia ômega. Está sendo bem tratado?
– Sim... Obrigado.
– Quero que você se acostume com sua nova realidade, quero você ao meu lado.
– Como assim? – Eu disse arregalando os olhos assustado.
– Quero fazer de você meu ômega e sinta-se privilegiado, pois nunca escolhi nenhum ômega pra governar ao meu lado. Quero ter muitos filhotes com você.
É agora que tenho que entrar em desespero? Como assim esse alfa doido me quer ao seu lado? Preciso dar um jeito de fugir daqui o quanto antes. Tentei o meu máximo pra não transparecer o meu desespero, eu precisava de que ele abaixa-se a guarda. Tento manter a conversa agradável, até que sugiro uma volta no jardim depois da jantar ele me acompanhou para um passeio breve.
A noite estava fria e assim que saímos um vento gélido tocou meu corpo me fazendo arrepiar. Vendo que eu estava com frio o alfa me abraçou e colocou seu nariz na curvatura do meu pescoço e aspirou o meu cheiro.
– Seu cheiro é gostoso. - Ele disse depositando um beijo em cima da minha glândula. – Menta...
Juro que tive uma enorme vontade de lhe socar a cara, mas me contive. De repente, começa uma agitação ao redor da casa e logo um beta aparece todo afoito dizendo que tem lobos na floresta vindos na direção deles.
Woojin me mandou de volta ao quarto e aproveitando que faria todo o trajeto sozinho, eu aproveitei pra entrar na sala, peguei uma garrafa de alguma bebida alcoólico aleatório que estava em cima da mesa, um isqueiro e voltei para o quarto.
Não demorou muito para que a ômega aparecesse no quarto, eu apenas avisei pra ela ficar esperta, pois nós iriamos fugir, eu não poderia deixá-la para trás. Coloquei o ouvido na porta para escutar e percebi que o andar em que estávamos, estava quieto, então rapidamente saí e entrei no quarto a minha frente, vou até a janela, rasgo um pedaço da minha camiseta e coloquei na boca da garrafa. Peguei o isqueiro no meu bolso e acendi o pedaço de tecido e joguei pela janela, voltei correndo para o quarto, peguei na mão da ômega e saímos correndo.
Aproveitando a distração, nós dois conseguimos sair pela cozinha e entramos na floresta desesperadamente. Depois da explosão, um corre-corre começou e logo começou uma fuga alucinada pela floresta escura.
Meu coração batia como um tambor enquanto corríamos pela floresta densa e escura, sentindo a adrenalina pulsar em cada veia. As mãos da jovem ômega, frias e trêmulas, apertavam a minha enquanto corríamos em um frenesi cego, guiados apenas pelo instinto de sobrevivência. A explosão da garrafa ainda ecoavam à distância, seguidas pelos gritos confusos e furiosos de alfas e betas na fortaleza de Woojin.
– Continue correndo! – Sussurrei com urgência, segurando a mão dela com força. – Não olhe para trás!
A ômega estava ofegante, mas não desacelerava. Eu sabia que o menor deslize poderia custar nossas vidas. Olhei rapidamente para trás, apenas para me certificar de que ainda não estávamos sendo seguidos, mas a escuridão da floresta parecia esconder perigos em cada sombra.
A marca temporária em meu pescoço ardia como fogo, uma sensação constante que me mantinha alerta e cheio de preocupação por Hyunjin. Eu sabia que precisava sobreviver, não apenas por mim mesmo ou pela ômega ao meu lado, mas também por meu filhote e pela pessoa que eu amava.
Depois de algum tempo correndo, nós dois finalmente encontramos uma clareira iluminada apenas pela luz pálida da lua. Paramos, ofegantes, tentando recuperar o fôlego. Coloquei as mãos nos joelhos, tentando respirar fundo enquanto olhava ao redor.
– Precisamos descansar – Eu disse com a voz rouca. – Só por alguns minutos.
A jovem ômega assentiu, mas não se sentou. Seus olhos estavam arregalados, como os de um animal encurralado.
– Eles vão nos encontrar. – Sussurrou ela, abraçando a si mesma. – Woojin nunca deixa ninguém fugir.
Aproximei, colocando as mãos suavemente nos ombros dela.
– Não vamos deixar que isso aconteça. – Eu disse, tentando passar uma confiança que não sentia completamente. – Temos que continuar nos movendo. Você conhece a floresta melhor do que eu?
Ela assentiu hesitante.
– Um pouco – Admitiu. – Há uma trilha que leva a um riacho mais à frente. Se conseguirmos atravessá-lo, poderemos despistar o cheiro.
Respirei fundo, tentando ignorar a dor na barriga e o medo crescente. Eu precisava ser forte, mesmo que estivesse à beira de desmoronar.
– Certo – Eu disse firmando a voz. – Vamos para o riacho. Rápido.
Enquanto seguíamos pela trilha estreita, eu ouvia os estalos de galhos ao longe, sinais de que estávamos sendo perseguidos. Eu senti um calafrio subir pela espinha, mas não diminui o ritmo. O som do riacho finalmente chegou aos nossos ouvidos, um alívio momentâneo em meio à tensão.
– Estamos quase lá. – Eu disse segurando a mão da ômega com mais firmeza. – Só mais um pouco.
Assim que chegamos à beira do riacho, não perdi tempo. Entrei na água gelada até a cintura puxando a ômega junto. O frio me atingindo como uma onda de choque, mas eu continuei atravessando, com a água subindo até meu peito.
Ao alcançar o outro lado, ambos estavam tremendo, mas eu sabia que não podíamos parar. Precisávamos continuar em frente, encontrar um esconderijo ou um caminho para sair daquela floresta antes que Woojin nos alcançasse.
Por horas, caminhamos sem rumo certo, apenas se afastando o máximo possível da fortaleza. Finalmente, quando os primeiros raios de sol começaram a surgir no horizonte, encontramos uma pequena caverna parcialmente coberta por arbustos. Ajudei a ômega a entrar, certificando-se de que estávamos escondidos antes de desabar no chão de terra.
– Vamos descansar aqui por um tempo. – Eu disse exausto.
A ômega assentiu, suas mãos ainda tremendo enquanto ela abraçava os joelhos.
– Obrigada. – Murmurou ela, os olhos brilhando com lágrimas. – Por não me deixar pra trás.
Dei um sorriso fraco, mas determinado.
– Ninguém merece o que ele faz. – Respondi. – Vamos sair dessa. Eu prometo.
Enquanto o sol começava a iluminar a floresta, fechei os olhos por um momento, tentando encontrar força para o que ainda estava por vir. Sabia que a luta estava longe de terminar, mas por ora, estávamos vivos. E isso era tudo que importava.

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