Pov de Felix
Amanheceu na floresta, e a luz tímida que escapava pelas copas densas das árvores mal iluminava o caminho. Eu e a ômega seguíamos em silêncio, os ouvidos atentos a qualquer som que denunciasse uma aproximação. Durante a noite, corremos sem descanso, mas agora, sem barulhos à espreita, decidimos andar, poupando a pouca energia que ainda tinhamos.
Os passos eram lentos, cautelosos. Olhei de relance para a ômega ao meu lado. Ela estava magra, os cabelos despenteados e a expressão tensa, mas seus olhos brilhavam com determinação.
– Qual é o seu nome? – Perguntei quebrando o silêncio.
A ômega hesitou, como se não soubesse se podia confiar em mim. Mas então suspirou e respondeu:
– Yara.
Sorri levemente, mesmo cansado.
– É um belo nome.
Ela não respondeu, apenas desviou o olhar para a floresta à frente. Após alguns minutos de caminhada, parei e me encostei a uma árvore, respirando com dificuldade.
– Vamos descansar um pouco. – Sugeriu Yara.
Assenti, sentando-me na terra fria. Enquanto eu tentava recuperar o fôlego, Yara se levantou.
– Vou procurar algo para comermos. Espere aqui.
Sem mais uma palavra, ela sumiu entre as árvores. Observei-a partir, sentindo uma pontada de preocupação, mas estava exausto demais para argumentar.
Pouco tempo depois, Yara voltou com um punhado de frutas pequenas e azedas. Comemos em silêncio, o sabor agridoce sendo um alívio momentâneo para a fome.
O ambiente continuava sombrio, as árvores altas pareciam se curvar sobre nós, como se quisessem nos engolir. O frio ainda cortava a pele, e o cansaço tornava cada passo mais pesado. Sem rumo definido, continuamos andando, esperando deixar para trás as terras da alcateia de Woojin.
Quando a noite caiu, o lugar ficou ainda mais assustador. As sombras das árvores pareciam se mover, e o vento carregava sussurros que faziam o coração disparar.
Então, os uivos começaram.
Primeiro distantes, como se fossem ecos, mas logo se tornaram mais próximos. Eu e Yara paramos, trocando olhares assustados antes de começarmos a correr novamente.
O medo nos impulsionava, mas eu já estávamos exausto. Minha respiração estava pesada, e uma dor aguda começava a pulsar em minha barriga.
– Não... posso... continuar... – Ofeguei, tropeçando em uma raiz.
– Você precisa! – Gritou Yara, puxando-me pelo braço.
Os uivos estavam cada vez mais perto, e quando olhamos para trás, vimos olhos brilhantes entre as sombras. Um lobo negro enorme saltou em nossa direção, suas presas brilhando à luz fraca da lua.
Foi então que um clarão invadiu a floresta, tão intenso que nos cegou. Eu e Yara fechamos os olhos, protegendo com as mãos. Tudo ao redor ficou em silêncio, como se o mundo tivesse parado por um instante.
Quando a luz diminuiu, não estávamos mais na floresta. Olhei ao redor, atordoado. Estávamos em uma casa grande e acolhedora, com paredes de madeira e cheiro de ervas no ar.
No centro do cômodo, uma garota loira nos observava com surpresa. Seus olhos brilhavam com curiosidade e algo mais, como se já nos conhecesse.
Cambaleei de exaustão, dei alguns passos em direção a ela. Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, sorri fracamente e murmurei:
– Finalmente eu te encontrei.
E desabei nos braços da garota.
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Pov de Woojin
A noite estava calma na alcateia, eu desfrutava de um raro momento de paz. Sentado a mesa de jantar, observava Felix que estava todo nervoso. Me permiti um pequeno sorriso; momentos assim eram raros.
O ômega queria sair pra respirar um pouco, pois desde que ele foi capturado ele não saiu do quarto, então cedi a sua vontade e o acompanhei até o jardim. No entanto, a calmaria não durou. Um movimento rápido dentro da casa chamou minha atenção, e logo um de meus betas de confiança veio até mim apressado, sua expressão grave.
– Alpha, temos problemas. Há intrusos em nossas terras. Alguns lobos foram vistos se movendo rapidamente pela floresta.
– Entendido. Vou verificar. – Me virei para Felix tentando não ser rude. – Volte para o quarto. Não saia de lá até que eu diga que é seguro.
O ômega hesitou por um instante, mas o meu tom autoritário não deixava espaço para discussão. Ele assentiu e desapareceu no corredor.
Segui o beta, a tensão no ar era palpável, mas antes que pudesse chegar à entrada principal, um som ensurdecedor ecoou pela noite.
BOOM!
A explosão sacudiu o solo, e gritos começaram a se espalhar pela propriedade. Parei no meio do caminho, meus sentidos aguçados captando o caos que se desenrolava.
– O que foi isso? – Rugi, olhando para o beta.
– Não sei, Alpha! Parece que foi perto do setor norte! – Respondeu o beta, os olhos arregalados.
Não esperei por mais informações. Dei meia-volta e corri de volta para a sala principal. Algo estava errado, e a preocupação crescente em meu peito era um peso que eu não podia ignorar.
Ao entrar, vasculhei cada cômodo, mas Felix não estava em lugar algum. O quarto estava vazio, assim como os corredores. A preocupação deu lugar a um desespero contido.
– Felix! – Chamei, mas nenhuma resposta veio.
Inspirei fundo, fechando os olhos por um instante. Meu olfato apurado captou o cheiro de Felix misturado a outro cheiro familiar: o da ômega que eu havia deixado à disposição de Felix.
Meu sangue ferveu.
Sem pensar duas vezes, sai da casa, meus instintos de alpha assumindo o controle. Assim que cheguei ao início da floresta, parou para farejar o ar, seguindo a trilha deixada pelos fugitivos.
Com um rosnado grave, permiti que minha forma lupina emergisse. Meu corpo se transformou rapidamente, ossos estalando e músculos expandindo até eu estar em minha forma de lobo. Enorme e imponente, meu pelo cinza mesclado de preto reluzia sob a luz da lua.
Avancei pela floresta com ferocidade, minha presença imediatamente atraindo outros alfas que me alcançaram em poucos minutos. Juntos, seguimos a trilha de Felix e da ômega.
O caminho nos levou até a beira de um riacho. Parei abruptamente, o focinho farejando o ar com intensidade. O cheiro terminava ali.
– Eles atravessaram – Disse um dos alfas, ofegante.
Grunhi, meus olhos brilhando com frustração. Me transformei de volta à minha forma humana, minha voz autoritária ecoando na escuridão.
– Vocês quatro, atravessem o riacho e continuem a perseguição. Não parem até encontrá-los.
Os alfas obedeceram de imediato, mergulhando no riacho e desaparecendo na escuridão da floresta do outro lado.
Olhei para o restante do grupo, minha mandíbula tensa.
– O restante, comigo. Vamos voltar e verificar os intrusos. Quero saber quem ousou invadir minhas terras.
Os lobos ao meu redor responderam com rosnados afirmativos, e juntos, começamos a voltar. No fundo, no entanto, o descontrole queimava dentro de mim. A ausência de Felix era uma ferida que eu não podia ignorar, e eu jurei que, acontecesse o que acontecesse, não descansaria até trazê-lo de volta.

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