Pov de Felix
O dia amanheceu nublado, com nuvens pesadas que obscureciam o céu. Eu, ainda com o coração apertado pela situação de Chan, sabia que não poderia esperar mais. Não podia ficar parado enquanto futuro líder se desfazia. A dor que Chan sentia por estar longe de Ji-Yeon o consumia de maneira física, como se algo estivesse sugando sua força vital a cada hora. Eu sabia que, se não encontrasse minha melhor amiga logo, talvez fosse tarde demais. Era uma corrida contra o tempo.
Peguei o casaco, olhei para Hyunjin, que estava descansando no sofá, ainda preocupado com Chan, e saí sem dizer uma palavra. Sabia que não poderia contar nada a Hyunjin sobre o que planejava fazer. Não agora. A ideia de partir sozinho para a floresta, em busca da bruxa, era a única solução que eu via para salvar Chan.
A floresta parecia mais escura hoje, mais densa. O ar estava carregado com um cheiro de terra molhada e folhas secas. Eu andava com passos firmes, o som das folhas secando sob meus pés quase me acalmava, mas, ao mesmo tempo, a sensação de que estava se afastando de tudo o que conhecia me fazia acelerar os passos.
Eu conhecia bem o caminho. A bruxa, essa figura enigmática que era ao mesmo tempo temida e respeitada, vivia em algum lugar profundo na floresta, onde o mundo real se misturava com o sobrenatural. Eu tinha certeza de que ela poderia me ajudar. Ela tinha o poder de mudar destinos, mas eu sabia que, em troca, algo seria exigido.
Depois de horas de caminhada, finalmente a encontrei. A bruxa estava sentada em sua velha cabana de madeira, suas mãos enrugadas trançando fios de alguma erva desconhecida. Ela não me olhou quando eu entrei, como se já soubesse da minha chegada.
— Filhote, você está atrasado. — Ela disse com a voz rouca, mas calma.
Me aproximei rapidamente, sem rodeios.
— Preciso de notícias de Ji-Yeon. Onde ela está? Eu preciso encontrá-la. Chan está morrendo porque está longe dela! Ele não consegue sobreviver a essa dor.
A bruxa levantou os olhos para mim pela primeira vez, e eu vi o brilho frio de sua sabedoria. Ela permaneceu em silêncio por um momento, como se pesasse minhas palavras.
— Ela está bem. — Disse a bruxa finalmente, com um tom de desinteresse, mas algo em sua voz parecia desconfortável. — Está longe de tudo o que a faz mal. Encontrou paz, encontrou seu próprio caminho, longe das lutas que a consumiam. Ela vive uma vida tranquila, filhote.
Senti um aperto no peito, um desconforto crescente.
— Ela está em paz… longe de tudo. Mas Chan não está, senhora. Ele não vai durar muito mais sem ela. Eu imploro, me diga onde ela está. Eu farei qualquer coisa em troca.
A bruxa soltou uma risada baixa, que ecoou pela cabana de madeira, e eu sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
— Você ainda não entende, não é? A dor que ele sente é mais do que física. É a dor de uma alma separada de sua outra metade. Não há cura para isso, filhote, a não ser o que ele já conhece.
— Eu não posso deixá-lo morrer assim! Por favor, me diga onde ela está. Eu preciso encontrá-la. — Insisti, desesperado, sentindo que meu coração começava a bater mais rápido. Eu não podia voltar para casa sem uma resposta, sem uma chance de salvar aquele alfa sarnento.
A bruxa suspirou profundamente, e, finalmente, parecia desistir da sua postura indiferente. Ela levantou-se lentamente, caminhando até a janela da cabana, como se estivesse considerando algo.
— Eu posso ajudá-lo, mas não da maneira que você espera. — Ela disse com a voz mais suave agora, mas ainda com um tom de advertência. — O que você deseja é reunir almas que foram separadas, e isso requer um preço.
Senti um frio percorrer minhas veias. Eu sabia que algo mais estava por trás da oferta da bruxa.
— O que você quer em troca?
— Eu não gosto do seu amigo. Ele é teimoso, e sua presença nunca foi bem-vinda aqui. Mas se você insiste tanto, posso ajudá-lo a unir Ji-Yeon a ele. Como fiz antes, com ela… uma ligação. Um selamento. — A bruxa olhou para mim com um sorriso torto, seus olhos estreitando-se. — Mas, se você não quiser isso, o único caminho é procurá-la sozinho, e eu não sei se você estará preparado para os testes que virão.
Sabia que o que ela sugeria não era simples, e nem eu estava completamente confortável com a ideia. Eu me lembrava do que aconteceu com Ji-Yeon, a mudança que ela passou depois de ser selada, e a ideia de algo tão permanente me assustava. Não queria que Chan fosse forçado a viver uma vida limitada por esse tipo de mágica.
— Não. Não vou fazer isso com ele. — Eu disse com firmeza, afastando o medo que sentia. — Eu não quero que ele seja selado. Eu só quero encontrar Ji-Yeon e trazê-la de volta.
A bruxa me observou em silêncio por um longo momento, e depois balançou a cabeça como se já soubesse o que viria. Então, com um suspiro cansado, ela se virou e se aproximou de uma prateleira cheia de frascos e pergaminhos. Ela pegou um pedaço de papel antigo e me entregou.
— Eu não posso te dar a localização exata dela, mas posso te dar uma pista. — Disse a bruxa. — Ji-Yeon está em um dos três lugares mais importantes para ela, um que você conhece bem. Só você pode saber a direção a seguir.
Peguei o papel com uma sensação de alívio misturada com desconforto. Olhei para a bruxa, esperando mais, mas ela apenas murmurou uma rima que parecia carregar mais peso do que ele imaginava:
"Três caminhos se abrem, cada um com seu preço.
Onde a vida dela floresce, a paz se esconde ao fundo.
No norte, no sul, ou talvez no oeste,
Se seguir seu coração, encontrará o que é justo e verdadeiro."
Senti um arrepio passar por minha espinha. Eu sabia exatamente o que isso significava. As três direções que a bruxa mencionava eram as três alcateias mais importantes da região, lugares que Ji-Yeon sempre tivera uma ligação profunda. O norte, o sul, e o oeste.
A bruxa me observou com um olhar penetrante.
— Agora vá, filhote. A verdade não se encontra em palavras, mas em sentimentos. Você sabe o que fazer.
Não hesitei. Com o coração apertado e a mente fervilhando de dúvidas, eu me despedi da bruxa e me afastei. Eu não sabia o que encontraria, mas sabia que meu destino estava em uma dessas três direções.
Com os pés firmes no caminho à frente, respirei fundo e decidi. Eu iria até o fim. Encontraria Ji-Yeon e traria de volta para salvar Chan, não importa o que acontecesse.

0 Comments:
Postar um comentário