Pov de Felix

 

 

Abri os olhos lentamente, piscando contra a luz fraca que iluminava o quarto. O ambiente era abafado, e o único brilho vinha de abajures que projetavam sombras longas e inquietantes nas paredes. Tentei sentar-me, mas uma leve dor na barriga me fez parar e colocar a mão sobre o local.

 


O quarto ao meu redor era sombrio, com móveis em tons de preto e cinza, e paredes pintadas de um azul escuro quase opressivo. Tudo ali parecia cuidadosamente projetado para sufocar qualquer sensação de conforto. O meu coração começou a bater mais rápido, e um arrepio percorreu minha espinha. Onde eu estava?

 


Antes que pudesse processar completamente, o som de uma porta se abrindo fez meus olhos dispararem para o lado. Uma figura entrou silenciosamente no quarto: uma jovem ômega, mas sua aparência me fez prender a respiração. Seu rosto estava marcado por hematomas, e cortes recentes decoravam seus braços. Ela carregava uma bandeja com uma tigela de sopa e um pedaço de pão, caminhando com passos lentos e hesitantes.

 

 

– Você precisa comer – Disse ela com a voz baixa e desprovida de emoção.

 

 

Hesitei. Eu queria perguntar onde estava, quem era ela, o que estava acontecendo. Mas algo no olhar vazio da ômega me fez engolir as palavras. Ela colocou a bandeja na mesa ao lado da cama e aproximou-se para ajudar-me a me sentar. Cedi, percebendo que, por mais que não quisesse, meu corpo precisava daquela refeição.

 


Enquanto eu levava a colher à boca, meu olhar não conseguia se desviar dela. Eu observava os machucados, a maneira como ela evitava contato visual, como se tivesse medo até de respirar muito alto. A sopa descia quente por minha garganta, mas o desconforto de vê-la daquela forma era ainda mais intenso que minha própria fome.

 


Depois de algumas colheradas, tentei falar:

 

 

– Você está bem? Posso...

 

 

Antes que pudesse terminar, a ômega deu um passo para trás, erguendo a mão como se quisesse impedir-me de se aproximar.

 

 

– Não me toque – Disse ela com a voz firme, mas trêmula. – Não fale. Não questione. Não tente ajudar ninguém aqui. Nós não temos voz.

 

 

Aquelas palavras caíram como uma pedra no meu estômago. Segurei a tigela com mais força, a indignação começando a borbulhar sob minha pele. O que era aquele lugar? Por que ela falava como se não tivesse permissão de ser humana?

 

Depois que terminei a sopa, a ômega pegou a bandeja sem dizer mais nada. Antes de sair, ela olhou para mim por um breve momento, seus olhos mostrando uma mistura de advertência e algo que parecia... piedade.

 

 

– Não faça perguntas. Apenas... espere.

 

 

E então ela saiu, deixando-me sozinho novamente.

 

O tempo passou de forma lenta e angustiante. Fiquei deitado, os pensamentos girando em minha cabeça como um turbilhão. Eu acariciava minha barriga inconscientemente, tentando me concentrar no pequeno sinal de vida dentro de mim como uma forma de manter a calma. Mas a ansiedade e o medo pareciam crescer a cada segundo.

 


Horas depois, a porta se abriu novamente. Era a mesma ômega, mas agora seu rosto estava ainda mais tenso.

 

 

– O alfa quer vê-lo. – Ela disse sem olhar diretamente para mim.

 

 

O meu sangue gelou. Tentei manter a calma, mas a simples menção de um alfa naquele ambiente hostil fez meu corpo entrar em alerta. Engoli em seco, lutando para esconder o medo em minha expressão.

 

 

– O que ele quer comigo? – Perguntei, finalmente ousando falar.

 


– Não faça perguntas. – Repetiu ela, balançando a cabeça. – Apenas... venha.

 

 

Sem escolha, me levantei, embora minhas pernas tremessem. Eu sabia que precisava ser forte, mesmo que cada fibra do meu ser quisesse se encolher e fugir. Conforme segui a ômega pelo corredor escuro e estreito, um único pensamento ecoava em sua mente:

 


O que me espera agora?

 

 

 

 

Fui conduzido pela ômega através de um longo corredor escuro. O ar parecia mais pesado a cada passo, e o silêncio era quebrado apenas pelo som de nossos pés tocando o chão de madeira. Eu sabia que estava indo para algo que provavelmente não acabaria bem, mas não tinha escolha. O medo apertava meu peito, mas tentei manter a cabeça erguida.

 


Quando chegamos a uma porta dupla imponente, a ômega parou e virou-se para mim, os olhos carregados de advertência.

 

 

– Apenas responda o que ele perguntar. – Ela disse com a voz tão baixa que mal era um sussurro. – E tente... tente não o provocar. É o único conselho que posso lhe dar.

 

 

Assenti levemente, engolindo o nó em minha garganta. A ômega empurrou as portas, revelando uma grande sala iluminada apenas por um fogo crepitante em uma lareira no canto. O calor parecia não alcançar o ambiente; a atmosfera era fria, opressiva.

 


No centro da sala, sentado em uma cadeira de madeira escura esculpida com detalhes intricados, estava o alfa. Ele era alto e corpulento, com olhos cinzas que pareciam ver além da carne, direto para a alma. Seus lábios estavam curvados em um leve sorriso, mas não havia nada de caloroso nele. Apenas algo predatório.

 


Parei na entrada, os joelhos ameaçando ceder. O alfa me observava com interesse, seu olhar correndo lentamente sobre mim. Quando seus olhos pararam em minha barriga, uma faísca de algo diferente passou por sua expressão – curiosidade ou talvez algo mais profundo.

 

 

– Então você é o intruso que cruzou minhas terras – Disse o alfa, sua voz profunda reverberando pela sala. Ele fez um gesto com a mão, indicando que eu deveria me aproximar. – Venha, ômega. Quero conhecê-lo melhor.

 

 

Hesitei por um segundo, mas a ômega ao meu lado me empurrou gentilmente para frente. Caminhei com passos vacilantes, parando a uma distância respeitosa do alfa. Ele se inclinou ligeiramente para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos enquanto me examinava mais de perto.

 

 

– Nome? – Perguntou o alfa com sua voz cortante.

 


– F-Felix – Respondi com a voz tremendo.

 


– De onde você é? O que está fazendo nas minhas terras? – Continuou ele com seus olhos estreitando-se.

 

 

Abri a boca para responder, mas minhas palavras travaram. Eu não sabia o quanto deveria revelar, e o medo me impedia de pensar claramente. O alfa, percebendo minha hesitação, soltou um suspiro de frustração.

 

 

– Não tenho paciência para o silêncio. – Disse ele, sua voz assumindo um tom mais autoritário, impregnado com o poder de alfa. – Responda.

 

 

A onda de comando me atingiu como uma pancada. Estremeci, o peso da voz do alfa esmagando minha resistência. Minha cabeça baixou involuntariamente, e eu senti o suor escorrer por minha testa.

 

 

– Eu... estou procurando minha amiga... Ji-Yeon. – Respondi, cada palavra arrancada com dificuldade. – Ela desapareceu... eu não tinha escolha... precisava encontrá-la...

 

 

Ele inclinou a cabeça, como se estivesse ponderando minhas palavras. O sorriso predatório voltou aos seus lábios.

 

 

– E você decide invadir meu território para isso? Um ômega... e grávido ainda por cima. Que ousadia. – Ele se levantou lentamente, sua figura alta e imponente projetando uma sombra sobre mim. – Me diga, Felix. Quem é o pai? Por que ele não está cuidando de você?

 


Mordi o lábio, a vergonha e o medo misturando-se em meu peito. Eu não queria responder, mas sabia que não tinha escolha.

 

 

– Ele não... ele não sabe... – Admiti com a voz quase um sussurro. – Que fugi.

 

 

O alfa riu, um som baixo e cruel que me fez estremecer.

 

 

– Típico. Alfas desprezíveis. – Ele cruzou os braços, olhando para mim com uma expressão indecifrável. – E essa amiga que você está procurando... por que ela é tão importante para você a ponto de arriscar sua vida e a do seu filhote?

 


– Ela é tudo para mim – Digo com a voz saindo mais firme dessa vez. – Ela me ajudou quando ninguém mais se importava. Eu não podia... não podia simplesmente ficar parado.

 

 

O olhar do alfa escureceu. Por um momento, ele pareceu perdido em pensamentos, mas logo voltou sua atenção a mim.

 

 

– É admirável, mas também tolo – Disse ele. – Os ômegas não deveriam se meter em coisas assim. Aqui, vocês sabem seu lugar. E sabe o que acontece com quem não segue as regras?

 

 

Não respondi, mas o medo em meus olhos era evidente. O alfa sorriu novamente, um sorriso que fazia minha pele arrepiar.

 

 

– Não se preocupe, Felix. Eu vou cuidar de você... por enquanto.

 

 

Ele fez um gesto para a ômega que estava na porta.

 

 

– Leve-o de volta. Quero que ele descanse. Vamos conversar novamente amanhã.

 

 

A ômega obedeceu, me puxando com cuidado pelo braço. Fui levado de volta ao quarto, sentindo o peso do encontro como um manto sufocante sobre meus ombros. "Eu preciso sair daqui," pensei, enquanto a porta se fechava atrás de mim. "Mas como?"

 


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